Em tempos tão conturbados, depois de passar um dia nas redes sociais, de assistir às notícias, de ficar a par das novidades do mundo e de interagir com estranhos, é inevitável parar, sentar-se no sofá e levantar o seguinte questionamento:

Cara… de onde vem tanta maldade?

Já era inevitável antes, quando não existiam redes sociais e tampouco métodos de propagar notícias instantâneas. A origem da maldade humana é algo fomentado por muitos cientistas, filósofos e pensadores desde que a gente aprendeu o significado de ser gente.

Fomentado, sim; deveras rebuscado também, mas dificilmente apontado com uma única verdade. Acontece que as mentes mais brilhantes não parecem chegar a um consenso, mas não deixam de entregar um material rico em análises para estudos póstumos.

Sorte a nossa, né?

Por outro lado, esse post não foi feito para te dar uma resposta única. Se era isso que você buscava, sinto em lhe informar que será mais fácil te alimentar com mais perguntas do que com a verdade nua e crua.

Mas não feche a guia ainda, ok? Juro que valerá a pena!

Te trago aqui pontos científicos, neurológicos e até mesmo filosóficos para que VOCÊ chegue a sua própria conclusão quanto a nossa querida dúvida:

De onde vem a maldade?

Em 2012, o Dr. William Shoemaker e o Dr. Arber Tasimi apresentaram cada um uma pesquisa sobre como os humanos se tornam maus. Sim, pesquisas que literalmente estudam a origem da maldade.

Interessante, não? Vamos por partes.

Pesquisa nº 1: A maldade inerente

O estudo de Shoemaker envolveu pessoas cruéis em situação carcerária e pessoas consideravelmente boas na população em geral.

Deve-se concluir, no entanto, que o “termômetro” utilizado na pesquisa do Dr. levou em conta o caráter da cidadania, já que a divisão foi dada pela obstrução ou não obstrução da justiça.

Shoemaker então conduziu varreduras cerebrais em ambos os grupos pesquisados para ver se havia alguma diferença significativa na estrutura física de seus cérebros e, surpresa: havia, sim.

Depois de comparar as imagens, William Shoemaker descobriu que quase todos aqueles considerados maus não tinham neurônios-espelho (guarde esse termo), mas sim uma área facial fusiforme deformada no lobo temporal em comparação com a população em geral.

Isso significa que a crueldade é genética?

Mais ou menos.

A química da crueldade

Avanços na neuroquímica e na tecnologia laboratorial mostram que muitos distúrbios emocionais como predisposição à violência, pensamentos suicidas, depressão e ansiedade envolvem interrupções na atividade normal do cérebro devido à expressão gênica alterada, desequilíbrios químicos e fatores ambientais.

Alterações na expressão de genes específicos no cérebro podem afetar os níveis de neurotransmissores que, por sua vez, influenciam funções complexas como inteligência, humor e memória.

Influências ambientais, incluindo estresse, abuso de substâncias, dieta, qualidade do sono e relações sociais também afetam o cérebro.

Em outras palavras, nosso cérebro trabalha à base de hormônios, que por sua vez precisam do ambiente ideal e da alimentação certa para que sejam produzidos em níveis saudáveis. Fatores genéticos, sejam eles heranças fraternas ou não, podem contribuir com o mal funcionamento de atividades cerebrais.

Voltando aos estudos

Lembra dos neurônios-espelho? Bom, eles são uma das descobertas mais importantes da neurociência. Uma descoberta recente, aliás, visto que ela só tem três décadas de existência.

Trata-se de uma variedade de neurônios visuoespaciais (armazenamento e/ou o processamento de informação visual) que indicam a interação social humana. Na prática, os neurônios-espelho respondem às ações que observamos nos outros.

A parte interessante é que os neurônios-espelho disparam da mesma maneira quando nós mesmos recriamos essa ação. Além da imitação, eles são responsáveis por vários outros comportamentos humanos sofisticados, incluindo processos de pensamento.

Defeitos no sistema de neurônios-espelho estão sendo associados a distúrbios como o autismo, o que definitivamente NÃO significa que pessoas autistas têm a predisposição da crueldade, já que existem outras formas de trabalhar a empatia.

Sim, empatia: o ato de se colocar no lugar do outro, de sentir sua dor, sua felicidade, seus sentimentos no geral.

O ato de espelhar-se não somente visualmente como emocionalmente também – algo que difere a bondade da crueldade, já que indivíduos cruéis são comumente ligados ao sadismo, ato de obter satisfação com a dor alheia.

Inclui-se aqui um questionamento menos científico e mais paradoxal quanto à empatia vista na teoria dos neurônios-espelho: e se a ideia de se colocar no lugar do outro ao imitar um sentimento negativo for, na verdade, de grande valia para quem sente prazer com a própria negatividade?

É exatamente por isso que frisei – e friso mais uma vez – na necessidade de evitarmos a comparação da apatia com o autismo.

Primeiro porque a falta da capacidade de sentir-se mal pelo sofrimento alheio vai além da ausência de neurônios-espelho, além da ciência e além da própria atividade cerebral. Segundo porque é uma comparação de extremo mal gosto.

Entra aí o estudo da mente, da psicologia e da própria psicanálise.

Seguiremos, então, para os estudos da pesquisa de número 2.

Pesquisa nº 2: A maldade insurgente

A pesquisa de Tasimi foi conduzida no Centro de Cognição Infantil da Universidade de Yale.

Para dar vida a seus estudos, ele encenou três simples fantoches que representavam um mocinho, um bandido e um simples espectador para bebês de 6 a 18 meses.

Após os shows de fantoches, a maioria das crianças queria brincar apenas com o mocinho em vez do bandido ou do espectador em qualquer situação, o que implica que é o ambiente de um ser humano que determina se eles se tornarão maus ou não, visto que os bebês não tiveram experiência suficiente para desenvolver qualquer tipo de caráter.

Se isso não mostra que as pessoas nascem boas e a sociedade as corrompe, como diz o ditado, ao menos mostra que a grande maioria prefere a companhia de pessoas boas – o que pelo menos define uma preferência inerente pela bondade.

O bom, o mal e o feio

A crueldade é algo tão peculiar que se tornou algo amplamente estudado, questionado e dividido em partes para facilitar a análise. Hoje, vemos a maldade em 2 partes distintas: o mal natural e mal moral.

Os males naturais convêm de situações ruins que não resultam das intenções ou negligência de agentes morais. Furacões e dores de cabeça são exemplos de males naturais, ou seja, coisas que nós não podemos controlar na maioria das vezes, salvo o aquecimento global e o excesso de breja (cerveja).

Em contraste, os males morais resultam das intenções ou negligência dos agentes morais. Assassinatos e mentiras são exemplos de males morais.

E o que pensam os filósofos?

Em muito, na verdade.

Mas principalmente no que devemos colocar na balança ao tentar delimitar os arquétipos da maldade, como o uso do termo “cruel” em nosso discurso político e jurídico, a relação entre o mal e outros conceitos morais, como maldade e transgressão, as condições necessárias e suficientes para a ação do mal e as condições necessárias para se desenvolver o mau caráter.

Ufa.

Nesse último caso, trago aqui um outro questionamento (meu pai amado, mais um?): se heróis e vilões da cultura geek dividem a mesma história trágica em suas origens, o que leva um a usar seus poderes para o bem e o outro a vislumbrar um autoritarismo sádico?

Poderíamos, então, juntar as pesquisas 1 e 2? A maldade é inerente e, portanto, dormente, esperando apenas ser afetada pela sociedade para enfim ser despertada?

Ohhhh.

Parece que estamos chegando em uma conclusão familiar.

Somos bons, somos maus, somos humanos

Immanuel Kant, filósofo prussiano (1724, 1804), foi o primeiro a oferecer uma teoria do mal puramente secular, ou seja, uma teoria que não faz referência a entidades sobrenaturais ou divinas.

A preocupação de Kant é dar sentido a três verdades conflitantes sobre a natureza humana:

  • Somos radicalmente livres
  • Somos por natureza inclinados para o bem
  • Somos por natureza inclinados para o mal

De acordo com Kant, alimentamos uma boa vontade moral quando escolhemos realizar ações moralmente corretas porque são moralmente corretas, e não somente por obrigação social.

Na opinião de Kant, qualquer pessoa que não tenha uma boa vontade moral tem uma vontade má, abandonando a teoria de que existe um meio termo, algo como um “true neutral” dos alinhamentos de RPG.

Ou você é bom ou você é mau. Ou você é mau ou você é bom. Ou você é ou você não é, sendo que ser bom não se limita à perfeição. Atravessar fora da faixa de pedestres não te transforma em uma pessoa má, apenas contrária à sua própria segurança.

Matar alguém, no entanto, perante as leis judiciárias e morais da sociedade atual, certamente te coloca em maus lençóis – e isso já é ruim o suficiente.

Fontes auxiliares:

Um comentário em “A origem da maldade: Um mergulho na Ciência, Psicologia e Filosofia

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